Aprenda a conter a agressividade e viva melhor!

[dropcap type=”1″]O[/dropcap] trânsito muitas vezes é palco de discussões acaloradas e distribuição gratuita de agressividade, principalmente no Brasil. Mas o que leva um povo internacionalmente reconhecido como cordial e pacífico a agir motivado pela raiva? A resposta talvez esteja na própria questão. Afinal, a definição de cordialidade nada mais é do que agir com o coração. E ter as emoções à flor da pele também significa se deixar levar do amor ao ódio, em poucos segundos –basta lembrar dos crimes passionais.

E, ainda que esses dados sejam recentes, a história do país mostra que não fomos sempre um povo 100% pacífico. “O Brasil tenta jogar para debaixo do tapete a sua brutalidade. Mas é importante lembrar da nossa história violenta contra os índios e negros, do tempo do cangaço e das nossas guerras civis, que preferimos chamar de outro nome, como revolta ou insurreição”, afirma o doutor em filosofia Gerson Leite de Moraes, professor de Ética da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas

Ao ignorar a própria natureza agressiva, mascaramos a contribuição individual para o caos. Quem se vê como alguém pacífico, cercado de pessoas violentas, conclui que o problema está no outro e não em si.

“Incluir-se no mundo é fundamental para criar consciência. O trânsito é, de longe, o palco por onde desfila nossa boçalidade e violência. Mas a culpa é sempre do outro: do caminhão, do ônibus, das motos, dos pedestres, dos ciclistas, dos bêbados. Ninguém diz: o trânsito é ruim porque tem gente como eu circulando nas ruas”, afirma o historiador Leandro Karnal, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)

Assim, a violência é sempre definida pelo sujeito. Aquele que é agredido vai abrandar a própria reação, não menos violenta, como uma resposta justa de alguém que precisa se defender. É essa a perspectiva dos que argumentam que “bandido bom é bandido morto” e que preferem fazer justiça com as próprias mãos. Os envolvidos em linchamentos, por exemplo.

“Se nós trabalhássemos com uma ética mais geral, entenderíamos que, se é errado matar alguém, isso vale para o bandido e para o Estado. Sob essa perspectiva, o homicídio na rua é tão ilegal quanto dentro da prisão”, diz o historiador.

O valor atribuído à força

Pesa também o fato de que o ódio, no Brasil, é visto como uma característica que confere força e capacidade de ação, um ensinamento passado de geração em geração. Na nossa cultura, alguém que se revolta é frequentemente julgado como uma pessoa de atitude, diferente daqueles que agem com tolerância e que se abrem para o diálogo. Esses últimos podem até ser vistos como fracos, apesar de colocarem a razão acima da emoção.

Para o historiador Leandro Karnal, o peso histórico da escravidão colocou o chicote como um argumento estrutural na consciência coletiva. “O que torna a violência sedutora é que ela funciona, enquanto a razão só tem êxito se os dois lados estiverem jogando de acordo com as mesmas regras”, explica o especialista.

O descontentamento com o poder público, da mesma forma, aguça nas pessoas um ímpeto egoísta, uma tentativa de diminuir ou extinguir as violências que elas próprias poderão vir a sofrer futuramente. Aqueles que defendem a pena de morte, o porte de armas e a diminuição da maioridade penal, geralmente, compartilham esse sentimento.

“Onde não existe política e Estado, existe o despotismo e o egoísmo”, explica a filósofa Adriana Mattar Maamari, professora da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos). “Nesse cenário, infelizmente, eclodem os piores movimentos, os mais insensatos e hostis aos próprios seres humanos, que opõem uns contra os outros. É a natureza humana tentando sobreviver em meio a tantas adversidades”, diz.

Quem nunca passou o dia tentando não se irritar com a fila do banco, o trânsito e o ônibus lotado, mas, ao final do dia, estourou com um probleminha? Segundo a professora Denise Pará Diniz, doutora em ciências da saúde e coordenadora do Setor de Gerenciamento de Estresse e Qualidade de Vida da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a irritabilidade acontece porque enfrentamos diversos estressores ao longo do dia, sejam eles estímulos externos ou internos. “Eles podem ser consequência dos relacionamentos, do ambiente de trabalho ou até mesmo dos nossos pensamentos”, afirma.

Violência gera violência

Outro ponto de atenção é que quanto menos se coíbe a violência, mais ela cresce. Por isso, responder a um ato de agressividade sem hostilidade talvez seja o maior dos desafios contemporâneos. “Fica mais fácil fazer isso se compreendermos que somos falhos e capazes de praticar maldades, tanto quanto qualquer outra pessoa. O outro agiu mal, mas você também poderia ter agido. Todos nós somos sublimes e infames”, afirma o filósofo Jorge Claudio Ribeiro, professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

Nos pequenos atos, a cultura da violência se perpetua. “O discurso agressivo e o bullying, por exemplo, desencadeiam violências maiores, assim como os comentários raivosos nas redes sociais”, declara o professor de ética Gerson Leite de Moraes.

E como conter o próprio ódio em uma sociedade violenta, em que cada um reproduz o que aprendeu, ao longo dos anos? Para os especialistas, a educação ainda é a melhor saída. Tanto a adquirida nas escolas quanto a ensinada pelos pais, a aprendida em livros, debates e outras manifestações culturais.

“Na base da nossa violência está uma cegueira em relação ao outro. Por isso, defendo uma educação que dissemine a tolerância e indique que é bom que sejamos diferentes, do ponto de vista estético, sexual, social ou étnico. É preciso ensinar a solidariedade com o outro”, diz Karnal.

Dicas para controlar a agressividade

1. TENTE SE CONHECER MAIS:

Segundo a professora Denise Pará Diniz, da Unifesp, o autoconhecimento é essencial para conseguirmos entender nossa fonte de irritação e evitar um próximo desgaste. “Se você fica irritado o tempo inteiro, é porque essa é uma escolha sua. Todos nós estamos sujeitos à irritação, mas podemos escolher a busca pelo equilíbrio e pela qualidade de vida”, afirma. Para a psicóloga Sâmia Simurro, mestre em neurociências e comportamento pela USP (Universidade de São Paulo) e vice-presidente de projetos da ABQV (Associação Brasileira de Qualidade de Vida), as pessoas têm uma forma subjetiva de compreender as situações. “Pode ser que em um dia eu esteja muito estressada e insatisfeita e algo tenha um impacto muito maior do que deveria”. Por isso, quem se conhece melhor tem mais chances de prever o quanto poderá explodir diante de um problema e o que fazer para contorná-lo.

2. RESPIRE FUNDO:

Ana Maria Rossi, doutora em psicologia e presidente da filial brasileira da ISMA (International Stress Management Association), diz que é importante ter alguma técnica de relaxamento para usar no dia a dia e não deixar as frustrações e pressões se acumularem. Para os especialistas, a melhor maneira de recuperar a calma diante de uma fonte de irritação é a respiração abdominal. A psicóloga Denise Pará Diniz, da Unifesp, explica que há dois tipos de respiração: a torácica e a diafragmática. “O certo é respirarmos sempre jogando o ar até o diafragma, mais na barriga. Isso ajuda a ter equilíbrio, principalmente diante de um fator de irritação”, diz.

3. CONTORNE PROBLEMAS:

Para a doutora em psicologia Ana Maria Rossi, o ideal é identificarmos aquilo que nos perturba e pensar em estratégias para lidar com a questão. Uma pessoa que fica irritada ao passar muito tempo em uma fila de banco, por exemplo, deve fazer o possível para evitar o período de almoço ou os dias de pagamento. Quando não há solução, é preciso respirar fundo e ter criatividade. A psicóloga Sâmia Simurro fala que devemos entender que algumas coisas podemos mudar, mas outras, não. “Nesse caso, temos de pensar em alternativas criativas para lidar melhor com a situação. Escutar música no trânsito, por exemplo”, diz

4. NÃO RECLAME À TOA:

É natural que, diante de uma irritação, nossa tendência seja a de reclamar sem parar. Mas, segundo Sâmia Samurro, mestre em neurociências e comportamento pela USP, a queixa deve sempre vir com uma proposta de evolução, e não ser apenas um desabafo. “Se você vê que tem como mudar alguma coisa e que, pontuando as falhas, poderá ter uma solução alternativa, tudo bem. Mas reclamar sem objetivo só gera mais tensão para você e desgasta os relacionamentos, já que alguém terá de ouvir as queixas”, afirma.

5. SAIBA LIDAR COM AS FRUSTRAÇÕES:

A mestre em neurociências e comportamento pela USP Sâmia Samurro diz que devemos aprender a aceitar nossos erros e saber lidar com as frustrações. “Se desenvolvermos nossa resiliência, conseguiremos achar soluções para situações que não são ideais e sofreremos menos”

Colaborado por Marina Oliveira e Suzel Tunes | Fique de Boa

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