Codependência afetiva: Escolhendo cafajestes

Por 30 anos, Mary se relacionou com homens-problema. Achava que era amor.
[intense_dropcap ]M[/intense_dropcap]eu primeiro namorado era o cara mais popular e paquerado do clube. Olhava para ele e via um verdadeiro príncipe sobre um cavalo branco, uma chance de viver uma aventura, de experimentar um amor de tirar o fôlego! Eu tinha só 16 anos. Não demorei muito para descobrir que o homem dos sonhos era, na verdade, um pesadelo. Meu suposto “príncipe” me traiu com várias, mentiu, usou drogas e me bateu.

Luiza_fiquedeboaO pior? Ele não foi o único. Já estive em uns dez relacionamentos sérios com namorados ciumentos e agressivos. Apanhei de cada um deles. E o mais surpreendente era que, na maioria das vezes, eles é que davam um fim à relação. Porque eu também era ciumenta.

Meu pai me chamava de mulher de malandro. O que ele não sabia é que eu tinha um problema. Era viciada nos meus namorados, como se eles fossem a droga e eu, a usuária. Por mais mal que me fizessem, não conseguia me afastar. O nome disso é codependência afetiva. E ela me custou 30 anos de relacionamentos problemáticos.

Crises de abstinência a cada rejeição… 

Meu penúltimo namorado foi o Marcelo. Quando a gente se conheceu, para variar, eu estava carente. Um dia, fomos almoçar e eu elogiei a beleza de um casal da outra mesa. Tomei um tapa na cara ali mesmo, por ciúmes. Mesmo assim, não terminei com ele. Foi o Marcelo que me deu o fora. E eu fiquei na pior! Não conseguia dormir, tinha palpitações, vomitava. Era como uma crise de abstinência.

Não suportava ser rejeitada. Tinha medo de ficar sozinha. Dependia dos namorados para me sentir segura e ficava no pé dos caras mesmo sendo pisada e humilhada. Não conseguia entender por que eu só atraía homens problemáticos. Depois de fazer terapia, descobri que quem buscava essas relações era eu. Gostava da ideia de cuidar daqueles homens. Achava que iria mudá-los. Na minha cabeça, eu faria os viciados largarem as drogas, os alcoólatras deixarem a bebida e os violentos pararem de me bater. Ingênua, carente!

Cresci vendo meu pai bater na minha mãe. Ele saía para jogar, ela quebrava tudo em casa e, quando ele voltava, sentava a mão nela. Eu tentava defendê-la e apanhava também. Ele jogava água fria em mim, tampava meu nariz para eu não respirar, me trancava no quarto e me ameaçava com faca.

“Me sentia um cachorro. E, quando você bate muito num cachorro, ele vira um bicho manso e medroso. Foi o que aconteceu comigo”

Como cresci vendo essas brigas em casa, relacionamentos violentos eram normais pra mim. Eu revivi o relacionamento dos meus pais. A referência que eu tinha era aquela. Não imaginava que pudesse encontrar um homem que não batesse na mulher. E ainda ouvia do meu pai que o casamento deles havia ido para o brejo depois que nasci. Por isso, achava que tinha que aceitar a humilhação.

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Se o cara fosse bonzinho, eu achava sem graça 

Todos os meus homens eram possessivos. Foi o caso do Luis. Quando o conheci, namorava o Virgílio, mas ele me virou a cabeça. Enquanto o Virgílio era rotina, o Luis era aventura! Fiquei deslumbrada, pelo menos no começo. Quando fomos morar juntos, ele se revelou um homem possessivo. Não me deixava sair de casa. Além disso, era muito tarado. Eu fazia sexo sem vontade, só para agradá-lo. E o mais louco era que isso me fazia feliz. Porque, se o cara fosse bonzinho, eu achava o namoro sem graça.

O Luis também usava drogas e tinha depressão. Ficava doidão às vezes. E pensar que essa loucura me atraía! Achava que, ao cuidar dele, eu me tornaria insubstituível. Só assim me sentia segura. Afinal, se ele precisasse de mim, não iria me abandonar. Comecei a fazer terapia depois de ler um artigo sobre codependência na internet. Me vi no texto. Na época, eu estava namorando o Daniel, mas nossa relação era um caos. Eu surtava a cada ligação que ele não atendia e vivia brigando por causa de uma ex dele.

O primeiro passo do tratamento foi assumir que eu tenho um problema. A terapia me ensinou que preciso gostar de mim mesma e me cuidar em vez de cuidar dos outros. Hoje sei disso. Não existe a outra metade da laranja, porque ninguém completa ninguém! Num relacionamento saudável, o casal cresce junto. São duas laranjas que se somam.

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O Daniel é o único que nunca me agrediu, mas, antes da terapia, eu vivia pra ele. Depois, passei a ser uma mulher independente. Saio quando quero, falo “não” e sou capaz de confiar nele. Aprendi que sou uma pessoa legal e que passar tempo comigo mesma é divertido! Quando a gente para pra pensar e descobre o que nos faz feliz, não sobra tempo para brigar com o namorado por qualquer motivo. Porque estamos vivendo a nossa vida! – MARY JANE STRUL, 49 anos, promotora de vendas, São Paulo, SP

Alguns casos são de amor e outros, de consultório!

“Por que só atraio homem problemático?”. Quem usa essa frase pode sofrer de algo perigoso: codependência afetiva

Codependente?

Uma codependente sofre na mão dos homens, que podem ser agressores, alcoólatras ou usuários de droga, mas não consegue deixá-los. Não por causa de um filho ou falta de dinheiro. E não é que ela os atraia. Ela procura homensproblema. “Ela vive em função desse relacionamento e só se sente útil se estiver cuidando de alguém”, explica a psicóloga Tatiana Ades, autora do livro Escravas de Eros. Segundo ela, essa dependência em excesso é como um vício em drogas e, no caso de agressores, pode ser fatal. Junto desses homens, elas se sentem mais poderosas. Quando eles vão embora, elas sentem enjoos, tremem e até tentam se matar. É como uma crise de abstinência.

Sintomas

As principais características são baixa autoestima, insegurança, zelo extremo com o outro e pavor de rejeição. Ela sempre vai justificar o problema do amado. Se ele é agressivo, é porque está estressado no trabalho, por exemplo. Além disso, “100% dos casos têm alguma questão familiar envolvida”, diz Tatiana. Uma codependente geralmente cresceu numa família desestruturada. “Aquilo acaba se tornando familiar e, por mais doloroso que seja, é aconchegante”, explica a psicóloga. Assim, a mulher repete o passado sofrido. E, como num vício, a codependente não se cura. Por isso, deve se manter longe de homens-problema para evitar recaídas. Fique alerta!

Colaborado por Luiza Furquim | Fique de Boa

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